O INCRÍVEL OSCAR PETERSON

(1925-2007)

Meu Tributo a um Gênio

Sem meias palavras, um virtuose do piano jazzístico!
Uma técnica extraordinária, capaz de competir com a velocidade da luz.
Exagero? Ouça as músicas selecionadas. Oscar Peterson nasceu no Canadá e foi bastante influenciado,
no final dos anos 30 e na década de 40, pelo gênio de Art Tatum.
Sua técnica é limpa, perfeita, irretocável. Chegava a praticar de 9 a 10 horas por dia, porque,
segundo ele, se não o fizesse, no dia seguinte poderia aparecer
um outro pianista para tomar o seu lugar.
Seu swing, seus efeitos em alta velocidade e seu approach
são inconfundíveis e o tornam um dos gigantes do piano no jazz.
Mas, embora sua característica mais marcante seja a extraordinária técnica,
possui uma apurada sensibilidade para executar temas em andamento lento,
as ballads. É um pianista completo.
As 88 teclas convencionais do piano são insuficientes
para o seu virtuosismo, a ponto de a fábrica Bossendorfer
ter construído para ele um piano especial,
o Bossendorfer Imperial, com uma oitava a mais na região dos graves.
Oscar Peterson é o piano!

Em 23 de dezembro de 2007 Deus chamou
Oscar Emmanuel Peterson à sua presença. Em 31 de dezembro, prestei minha modesta
homenagem ao seu gênio em minha coluna no Jornal do Brasil, abaixo reproduzida.


O SILÊNCIO DO BÖSSENDORFER

Ubiratan Iorio
(Publicado em 31/12/07)

A boa música, o jazz e o rei dos instrumentos musicais estão em silêncio
desde a noite de 23 de dezembro, quando Deus chamou o fenomenal
pianista e compositor canadense Oscar Emmanuel Peterson, em sua casa perto de Toronto, aos 82 anos,
de falência renal. Nascido em Montreal em 1925, c
omeçou a estudar trompete ainda menino, mas uma tuberculose
contraída aos sete anos o manteve hospitalizado
por meses a fio. Curado, resolveu abraçar o piano, a exemplo de um
irmão mais velho – que afirmava ter sido melhor do que ele –, precocemente falecido.
Formou quartetos, trios e duos com os maiores artistas do mundo
e desenvolveu extraordinária carreira solo, sempre arrebatando com a sua arte.
Vencedor oito vezes do Grammy e detentor de todas as glórias do cenário jazzístico,
jamais negou ser sua maior influência o pianista norte-americano Art Tatum,
a quem se referia como “o piano”, bem como Teddy Wilson e Nat “King” Cole.
Pianos de dimensões normais, mesmo os de cauda inteira,
eram literalmente pequenos para ele, quer pelo seu porte
de gigante negro, quer pelo que era capaz de fazer quando tocava.
Sua técnica, dinâmica, domínio do instrumento, inventividade, força, vitalidade,
emoção, velocidade e swing impressionantes exigiam mais, como o maravilhoso
Bössendorfer Imperial de fabricação austríaca, com oito oitavas completas, ou 97 teclas
(nove a mais do que os pianos convencionais), diante do qual
encontrava mais espaço para servir à sua arte imortal.
Alguns o acusavam de falta de criatividade e de emoção. Pobres críticos,
que não sabem o que é uma coisa nem outra
e - tenho certeza – são incapazes de tocar uma simples escala de dó maior
em um piano de brinquedo desses que Papai Noel adora presentear...
Criatividade? Ouviram-no executar, por exemplo, Wave, do nosso Tom?
Emoção? Será que escutaram sua Love Ballad, capaz de levar uma fria cascavel às lágrimas?
Suas execuções de um simples blues eram verdadeiras
aulas de virtuosismo e de história do jazz.
Muitos músicos eruditos teciam elogios respeitosos ao seu talento.
Mas os críticos, ah, os críticos...
Foi na casa de meus amigos Carlos e Hélio Delmiro
(o genial guitarrista) que ouvi Big Oscar e seu trio pela primeira vez, nos idos de 1964:
a música era Tonight, de Leonard Bernstein e minha reação foi perguntar
ao Carlinhos se ele havia encontrado alguma forma de acelerar as rotações do disco
em alterar a tonalidade das faixas...
Os solos de Peterson de Perdido e de Sweet Georgia Brown são arrebatadores.
Indescritíveis. Só vendo e ouvindo! (Podem, felizmente, ser achados no YouTube).
Sempre ligado à música e ao piano desde pequeno, quando observava minha mãe
e uma prima dando aulas, não consigo entender a vida sem a presença do instrumento
criado por Bartolomeo Cristofori, artesão da corte dos Medici, em Florença, por volta de 1694,
como alternativa - de sonoridade mais robusta e dotada de maiores possibilidades dinâmicas -
aos clavicórdios e cravos. São raros os dias em que algum de nós aqui em casa não abre o piano
para tocar algo e, quando isto acontece, geralmente,
é para não atrapalhar quem está em algum aposento ouvindo música...
Entre tantos pianistas de jazz, dois me marcaram desde
a adolescência e encheram de alegria e emoção a minha vida:
Bill Evans (falecido em 1980) e Oscar Peterson, de estilos diferentes,
mas, ambos, geniais. Todos os tecladistas de jazz e de bossa nova, mesmo que não o admitam explicitamente,
têm marcas da arte imortal desses dois artistas.
Vítima de um derrame cerebral em 1993,
Oscar perdeu quase todos os movimentos de sua poderosa mão esquerda
– verdadeira enciclopédia do stride piano e do boogie woogie - o que não o impediu de,
com abnegação heróica, voltar aos palcos e continuar a encantar platéias.
Em um de seus últimos DVDs, A Night in Vienna, é emocionante vê-lo com o quarteto,
com a mão esquerda esforçando-se para delinear ou sugerir o fundo harmônico
e a direita em forma ainda superior à da maioria dos pianistas que se apresentam em público...
O mundo está mais pobre sem o talento de Oscar Peterson.
O Bössendorfer Imperial guarda respeitoso silêncio.
Mas Deus, certamente, o terá recebido com um Bössendorfer Celestial.



Ouça e faça download de algumas interpretações do incrível pianista canadense.


Cool Walk

Love Ballad

All of Me

The Gravy Waltz

Blues for Big Scotia

Reunion Blues

Sweet Georgia Brown

Yhe Lady is a Tramp

Bluesology

Wave

D & E

Somewhere

You Make Me Feel So Young


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