SAMANEZ: PROFESSOR, ACADÊMICO, COLEGA E AMIGO (ELEGIA)

20/02/2016

patrEscrevo esta postagem ainda com grande tristeza e dor pela perda de um colega e amigo muito querido, o Professor Dr. Carlos Patricio Mercado Samanez, um dos colegas mais corretos e inteligentes com quem tive a alegria de conviver e cuja vida foi barbaramente arrancada pela sanha assassina de um (ou mais, ainda não se sabe) bandido(s) no início desta semana, na outrora imperial Quinta da Boa Vista, hoje transformada em antro onde perambulam livremente, em meio às pessoas de bem que ainda se arriscam a frequentá-la, prostitutas, indigentes, marginais, vagabundos e drogados.

Começo esta elegia sem versos ao meu querido amigo afirmando com convicção que não tenho nenhuma dúvida de que a raiz das crises na economia, na política, nas ideias, na família, nos costumes, na segurança e em praticamente todas as instituições que compõem a sociedade brasileira é de natureza moral. Nosso sistema de valores morais está podre, deteriorado, fétido e infecto!

 

Uma sociedade em que morrem assassinados anualmente cerca de 60.000 seres humanos, sem que o povo exija medidas drásticas por parte dos três poderes, não passa de um enorme aglomerado de pessoas acomodadas, patetas, inertes e inermes, em que "cidadania" não passa de uma palavra bonita, porém inteiramente vazia de conteúdo, nada mais do que um ineficaz placebo – dentre tantos outros - politicamente correto.

Infelizmente, em um país em que o número de cidadãos assassinados ultrapassa o de nações em guerra civil aberta e mesmo o de países em guerras nacionais, o valor da vida humana parece ter perdido o sentido, arrastando nessa perda a própria dignidade com que o Criador dotou a pessoa humana. O Brasil, em 2014, foi o 11º país mais inseguro do mundo, de acordo com dados do relatório Índice de Progresso Social (IPS).

Não quero me alongar sobre esse triste tema, apenas lembrar que as coisas só poderão melhorar a partir de um movimento endógeno, em que o povo exija energicamente que as ditas autoridades constituídas adotem o aparato legal apropriado para lidar com a gravidade dessa situação.

As penas leves e a baixa probabilidade de punição aos criminosos que caracterizam nossa lei penal e que levam à passiva e desastrosa constatação - tão conhecida pelos brasileiros, de que “a polícia prende, mas a justiça solta” -, imprimem, somadas, um convite em papel pergaminho e letras de ouro à prática de delitos.

As pessoas precisam entender que os “abraços e passeatas pela paz”, as doutrinas derivadas de um pleonasmo grosseiro – que é a expressão “direitos humanos” -, os “estatutos” para proteger menores viciados em cometer crimes, o conceito de “maioridade penal”, o “regime de progressão de penas”, o uso de eufemismos politicamente corretos, como “menores apreendidos” (quando o correto é usar “meliantes presos”) e qualquer outro nhém-nhém-nhém do gênero não vão contribuir para a reversão dessa horripilante e absolutamente inaceitável escalada do crime (devemos usar a palavra crime mesmo, e não o também eufemismo “violência”).

Ou colocamos um fim ao lero-lero politicamente correto ou as taxas de assassinatos vão continuar aumentando! A questão é moral, sim senhor: não é a pobreza que gera levas de assaltantes e assassinos. Basta olhar, por exemplo, para a Índia, o segundo país mais populoso do mundo, com aproximadamente 1,2 bilhões de habitantes. A Índia possui muitos milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza, mas, apesar disso, tem a segunda menor taxa de criminalidade do mundo, com cerca de 1,63 crimes por 1.000 habitantes. A explicação é moral: apesar de ser um caldeirão cultural, com 18 línguas e várias religiões, os valores pregados por essas religiões são respeitados pelos cidadãos. 

Ou resgatamos os valores morais – aqueles que ensinam que roubar, assaltar matar, estuprar, etc., são atos imorais e criminosos e como tal precisam ser punidos exemplarmente, ou muitos milhares de vidas de inocentes continuarão a ser ceifadas, sob a letargia conjunta da população e - por isso mesmo - das autoridades.

Feito esse justo desabafo – que espero possa levar muitos leitores a refletirem sobre que tipo de país desejam para si e para seus descendentes – deixem-me falar de meu amigo, mais uma dentre tantas outras vítimas – ele sim, foi realmente vítima! - de nossa sociedade degradada e com valores invertidos.

O Patricio – era assim que o tratava – foi meu colega na Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ por mais de duas décadas. Foi também professor e orientador de um de meus filhos no mestrado e doutorado em Finanças no Departamento de Engenharia Industrial da PUC do Rio.

Transcrevo o depoimento de meu filho Giuliano, postado no facebook logo depois da notícia do crime:

            “Difícil de acreditar. Foi além de suas obrigações como meu orientador. Durante seis anos vivia em sua sala da PUC para que me orientasse. Cada consulta sobre a dissertação e depois a tese era respondida com aconselhamentos carregados de carinho. Conversávamos sobre a vida, família, amigos. Era um orientador com um toque de pai. Torcia por mim e era severo quando necessário. Se tornou meu parceiro de artigos mesmo após eu terminar o curso e ir morar longe. Mesmo já sendo autor de dezenas de livros e mais de uma centena de artigos, me ligou todo feliz para comunicar a aprovação pela banca de cada um deles. Mais de dez anos após me formar e ele nunca se esquecia de me sugerir fazer o concurso para professor da PUC. Teria sido um prazer trabalhar ao seu lado Mestre querido. Meu pai teve essa sorte e de vez em quando contava histórias sobre você e sua HP-12C. Imagina o que teria feito com um Matlab, R2 ou E-views portáteis! Sentirei saudade. Fique com Deus”.

Difícil da gente não se emocionar. De fato, meu filho descreveu em poucas linhas quem foi o Patricio, o mestre, orientador e amigo. Estou certo de que qualquer um de seus alunos de graduação, mestrado ou doutorado, haverá de concordar com essas palavras.

Como professor, era capaz de ensinar desde noções básicas de Matemática Financeira e Análise de Investimentos (seu livro sobre o tema é o mais conhecido no Brasil) até os modelos bastante sofisticados de Finanças, na fronteira do conhecimento. E sempre cumprindo aquela que acredito ser a principal função de um professor: estimular os alunos a buscarem o conhecimento e ajudá-los de todas as formas a alcançá-lo. Sentia alegria quando percebia que seus alunos estavam crescendo em conhecimento e rigor acadêmico, como tive a alegria de observar com meu próprio filho, que se tornou seu amigo e parceiro de trabalhos acadêmicos. Não posso deixar de recordar também que, quando eu queria brincar com ele e dizia “Puxa, Patricio, você “estragou” o meu filho, enfiando na cabeça dele essas maluquices matemáticas”, ele ria muito e me dizia, depois de elogiar meu filho, que ele se sentia muito feliz de ver que ele estava produzindo trabalhos na fronteira do conhecimento. Ah, que saudade, Patricio!

O Professor Samanez foi também um dos acadêmicos mais sérios e respeitados de que tenho conhecimento. Sua busca pelo aprimoramento acadêmico das instituições em que trabalhou era incansável e não se esquivou nunca de lutar por esse ideal, muitas vezes criticando frente a frente outros para quem esse atributo não tinha a mesma importância – eu diria que quase uma obsessão – que ele atribuía. Uma consulta simples ao seu currículo Lattes é suficiente para comprovar seu apreço pela produção científica.

Uma atitude que o deixava irritado é quando percebia que qualquer jovem doutor, recém-aprovado em concurso para professor, manifestava pouca preocupação com a academia e muita preocupação com a política universitária, porque tinha convicção de que a principal preocupação de um novato deve ser a de produzir e ensinar, para só depois, já maduro, preocupar-se em assumir cargos no departamento ou na direção.  Lembro-me de que há cerca de dez anos, quando eu tinha uma coluna semanal no extinto Jornal do Brasil, ele me motivou a escrever um artigo (que foi publicado em duas partes) criticando o sistema de avaliação de docentes adotado pela Capes, baseado no critério que ele chamava de o paper pelo paper, em que a quantidade de artigos publicados em revistas e periódicos acadêmicos contava mais do que a qualidade dos mesmos. Ficou tão feliz por eu ter escrito aqueles dois artigos que os afixou no mural perto de sua sala na PUC.

Como colega, Patricio foi também sempre muito querido e respeitado, tanto por seus pares como pelos funcionários da Faculdade de Ciências Econômicas. A educação e o respeito eram duas de suas qualidades, mas sabia ser enérgico quando necessário sem deixar de ser educado. Basta perguntar a qualquer um deles. Nos últimos anos, conversávamos muito, duas vezes por semana, pois nossas aulas começavam no mesmo horário e nós chegávamos cerca de uma hora antes para conversarmos e trocarmos ideias. Nascido no Peru, amava também o Brasil e se preocupava com os rumos que o país tomou a partir de 2003. Mesmo sendo engenheiro e matemático, era um homem culto e lia muito sobre temas ligados às Ciências Sociais. Lembro-me que comentou comigo sobre meus livros e sobre Mises, Hayek e outros economistas austríacos diversas vezes, sempre com observações inteligentes.

Por fim, Patricio, além de professor, acadêmico e colega, foi um amigo e isso por si só já bastaria para admirá-lo, porque se mostrou um amigo de verdade. Não posso deixar de me lembrar de sua alegria espontânea na festa de casamento de meu filho. Já se passaram quase dez anos, mas aquilo ficou marcado.

Nossa última conversa foi há onze dias, precisamente em 9 de fevereiro, em um grupo inbox de colegas da faculdade no facebook. Comentávamos sobre a crise financeira do estado do Rio de Janeiro e ele escreveu:

“Deixando de lado a análise dos fatores que conduziram o estado a essa crise, foi uma façanha financeira ter conseguindo pagar a folha do funcionalismo. O futuro, só a Deus pertence”.

Escrevi então, em tom de blague: “Depois da palestra do nosso ex-aluno antes do Carnaval, ficou a pergunta: futuro, o que é isso”?

E ele, naquilo que ironicamente seriam suas últimas palavras dirigidas a nós, citou Woody Allen:

“Me interessa o futuro, pois é o lugar onde vou passar o resto da minha vida”.

Quatro dias depois, roubaram-lhe a vida.

Porém, como sei que comungava de nossa fé católica, posso dizer que me consola a certeza de que NS Aparecida, de quem ele era devoto, já o recebeu como mãe amorosa. E – quem sabe? – ele possa estar pedindo àquela a quem tanto venerou para mudar a fórmula do Valor Presente, para que ela faça com que o futuro que sonhamos para o Brasil possa começar já...

Que você esteja em paz, meu amigo. Interceda por sua família para que tenha fé e força e reze também por nós. A UERJ e a PUC sem você serão menos brilhantes e mais tristes.