Fev. 2017 - DILIGENTIBUS DEUM, OMNIA COOPERANTUR IN BONUM

Artigo do Mês - Ano XVI– Nº 179 – Fevereiro de 2017

 

bndesÉ verdade, tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, como ensinou São Paulo aos romanos (Rom 8,28). Ou, em linguagem popular e como nos ensinavam nossos pais e avós, quem é justo e honesto não tem nada a perder, pelo contrário, só tem a ganhar, mesmo que os ganhos não sejam materiais. Essa frase do apóstolo dos gentios não exprime qualquer exortação à simples resignação ou aceitação diante de situações difíceis ou desesperadoras. Pelo contrário, em um sentido mais amplo, é uma expressão da mais genuína esperança diante de acontecimentos, escândalos e quaisquer fatos que nos desagradam.

 

Sim, tudo é para o bem! Acredito que esse espírito de esperança seja o mais adequado para encararmos os episódios quase diários de corrupção envolvendo políticos dos altos escalões e grandes empresários, com processos, investigações, delações e prisões que vêm se sucedendo no Brasil de uns tempos para cá.

Trocando em miúdos, quero manifestar uma grande esperança de que todos esses tristes acontecimentos, que a mídia e as redes sociais repercutem fartamente – o mais recente é o da prisão preventiva do empresário Eike Batista, dentre tantos outros – sirvam para ensinar à nossa gente uma lição que sequer lhes passava pela cabeça.

Trata-se de um fato inequívoco, que os grandes autores liberais vêm observando há séculos, desde que os primeiros pós-escolásticos se puseram a escrever sobre economia e política: o de que a união entre o Estado e os empresários que se dedicam a prosperar com suas benesses é fatal para a moralidade, destrutiva para a economia e venenosa para a política.

Em outras palavras, estou afirmando que o capitalismo de compadrio - que é como vem sendo chamada essa nefanda união – é um sistema que contamina os três subsistemas que compõem as sociedades, a saber, o moral, o econômico e o político.

O capitalismo de compadrio é um incentivo para que empresários empreguem seu tempo, recursos e inteligência para obterem vantagens recebidas sem o trabalho ou empenho que suas atividades econômicas deveriam pressupor.

É mister ressaltarmos que em uma economia de mercado genuína não há espaço para esse tipo de atividade de sanguessugas, porque os produtores são forçados institucionalmente a atenderem da melhor maneira possível aos consumidores e os políticos não têm como vender suas facilidades para que pseudo-empreendedores possam obter lucros correndo o mínimo de riscos e sem qualquer preocupação com os consumidores em particular e os pagadores de tributos em geral.

Por mais que lamentemos esses episódios de corrupção, como o de Eike Batista, pois são de fato tristes constatações de uma modalidade de degradação moral que chamo de binária (Estado aliado a empresários-sanguessugas), podemos e devemos extrair deles uma importantíssima lição: ou adotamos normas de conduta que garantam o livre mercado, sem brechas para essas atividades doentias, ou literalmente continuaremos a quebrar nossas caras em termos de crescimento sustentado.

Um empreendedor de verdade não precisa conhecer os corredores do BNDES, ou as salas das diretorias da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, ou os passadiços da Esplanada dos ministérios em Brasília, ou os palácios de El-Rei, mas sim estudar os mercados em que atua e procurar oferecer as melhores alternativas para seus consumidores. Caso não o faça, em ambiente de verdadeira competição, ficará para trás, já que não poderá mais comprar favores das ditas autoridades.

É simples assim. Menos lobistas, mais engenheiros; menos especialistas em influenciar a legislação, mais administradores; menos expertos em tramóias público-privadas, mais economistas.

Esperemos que todos os escândalos que vêm sendo desnudados, com todas as manchetes que produzem, sirvam para alertar os contribuintes sobre os prejuízos que essas práticas causam a todos, a começar pelos pagadores de impostos e os consumidores. E que, de uma vez por todas, as pessoas se convençam de que economia de mercado não combina com controle do Estado, seja direto ou indireto, sobre o setor produtivo.

E – sonhar é de graça – que desperte a convicção de que órgãos como o BNDES precisam ser extintos, para bem de todos e felicidade geral da nação, assim como todas as empresas estatais.

É tempo de fazermos viger no Brasil os instrumentos legais e institucionais que nos levem a abandonarmos a chupeta das benesses em favor da bigorna do mercado.

Que toda essa sujeira que vem sendo revelada sirva para nos ensinar essas verdades. Tudo é para o bem.