Jan. 2016 - O “AEDES UNICAMPI”

Artigo do Mês - Ano XV– Nº 166 – Janeiro de 2016

unicampiEles são terríveis por seu poder destrutivo, perigosos por sua capacidade de prestidigitação, assustadores por sua arrogância e aterradores por sua personalidade traiçoeira. Podem ser encontrados em todos os cantos do Brasil, da América Latina e também, embora em menor número, na Europa e nos Estados Unidos, mas sua incidência é maior aqui entre nós, nas universidades, na mídia e em escritórios de órgãos e empresas estatais. Os focos maiores dessa desastrosa mosquitama e nos quais as larvas há anos encontram ambiente favorável à reprodução, no entanto, se localizam em Campinas, no bairro carioca da Urca e nas universidades públicas de todo o país. Não voam, mas dão aulas; não picam, porém escrevem artigos; e não se reproduzem em águas paradas, mas nos livros e artigos em que aprendem suas falsas teorias. Falsas sim, porque todas foram – para usarmos a linguagem de Popper – falsificadas à exaustão, sempre que foram postas em prática no mundo real, aquele velho mundão da ação humana voluntária.

 

São os economistas heterodoxos, a mosquitaria de aedes unicampi, seres que se julgam tão inteligentes a ponto de crerem que podem refutar princípios elementares, substituindo-os por mirabolantes engenhocas, como – e só para ficarmos com alguns exemplos – os cinco congelamentos de preços da segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90 e seu mais recente atentado contra a boa teoria econômica – e à inteligência -, a tal “Nova Matriz Econômica”.

Há princípios basilares de boa gestão da administração pública que nenhuma criatura com o mínimo de bom senso pode negar: (a) não se pode indefinidamente gastar mais do que se arrecada; (b) não se pode expandir a moeda e o crédito sem o devido lastro em poupança real; (c) não se pode interferir na formação de preços pelo processo de mercado; (d) não se pode brincar, especialmente, com um desses preços, a saber, a taxa de câmbio. Tão simples que irrita os heterodoxos, para quem simplicidade é sinônimo de equívoco. Bem dizia Ludwig von Mises: good economics is basic economics! Mas querer que um aedes unicampi tenha estudado Mises, Hayek e os demais economistas austríacos já é querer demais. Eles preferem, simplesmente, criticar por criticar, simplesmente porque as teorias desses economistas contrariam os ditames de sua seita, um misto de keynesianismo barato com marxismo vulgar.

Todavia, um aedes unicampi típico não só nega esses princípios, alegando que seriam “simplistas demais” (ou qualquer outra batata do gênero), como os desafiam abertamente, seja quando ocupam cargos no governo ou do alto de suas putrefatas e bolorentas cátedras, tanto as que ocupam na universidade como as que a mídia amiga – amiga porque vendida e burra - insiste em lhes oferecer. No passado, produziram uma hiperinflação, que só terminou quando as bobagens que defendem foram jogadas no lixo das tolices e substituídas pelo Plano Real. Mas não é que esses seres arrogantes, pretensiosos e despreparados, no primeiro mandato da senhora Dilma, foram no lixão e as cataram uma a uma, juntando-as em um quebra cabeças macabro a que deram o nome de “nova matriz”? E não é que o ministério da Fazenda, há poucos dias, foi entregue a outro desses exemplares? E que o anterior mosquito chefe, da espécie mantega, mantegae, foi substituído, após um ano de levyandades, pelo seu ex-assessor, da espécie barbosa, barbosae?

Destruíram impiedosamente – e criminosamente, via “pedaladas” – fundamentos duramente conquistados, sob a alegação de que não são necessários e são recessivos e que as teorias que os sustentam são falsas verdades, que podem ser desmistificadas por sua heterodoxia de mágicos de quinta categoria.

Como escrevi no artigo de fevereiro de 2015, “não gosto da expressão ‘ajuste fiscal’, porque ela dá a impressão de que bastam alguns esforços de curto prazo - tarefa para cerca de um ano - nas áreas da despesa e da receita (especialmente na última) para que as coisas sejam recolocadas em ordem. Prefiro a expressão mudança de regime fiscal, porque indica a real profundidade do problema e, assim, aponta para o caminho correto a ser tomado”. 

Pois esses senhores criticam até mesmo o ajuste fiscal, repetindo a cantilena monotônica de que “causam recessão”. Ora bolas, o que causa recessão, para o economista que enxerga mais de um palmo à frente, não são os ajustes, mas sua ausência! Acreditam que gastos públicos possuem o pretenso poder mágico de melhorar as vidas das pessoas, quando a realidade é exatamente o oposto disso! Não “gostam” quando o Banco Central aumenta a taxa de juros básica, porque isso causa – e tome cantilena surrada – recessão, porque são amigos íntimos da inflação, um fenômeno que jamais entenderam nem entenderão, mas que são especialistas em criar sem o menor pejo. E ainda se dizem “desenvolvimentistas”, como se alguém em sã consciência pudesse ser contra o desenvolvimento. Na verdade, se esses senhores são mesmo desenvolvimentistas, só pode ser no sentido de que desenvolvem o atraso...

Não aprenderam as lições nos anos 40, por ocasião do famoso debate entre o saudoso Professor Eugênio Gudin e o protecionista Roberto Simonsen; não aprenderam nos anos 50, quando JK resolveu colocar em prática o receituário torto da Cepal de Prebisch, Rangel, Furtado e outros para fazer o Brasil “avançar 50 anos em 5”; não aprenderam no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando o “desenvolvimentista” Delfim derrubou Mario Henrique Simonsen e mergulhou a economia do país, entre uma “medida” e outra, na estagflação; não aprenderam na segunda metade dos anos 80 e na primeira dos anos 90, quando conduziram cinco desastrosos “planos” com congelamentos de preços; não aprenderam com o sucesso do Plano Real, que criticavam irresponsável e acerbamente; e, por fim, não aprenderam com a crise internacional de 2008 e o subsequente fracasso das terapias keynesianas de dois mosquitos laureados com o Nobel - Krugman e Stiglitz - e as monetaristas de Bernanke. Será que vão aprender algum dia?

Quando a “nova matriz” foi anunciada, por volta de 2010, cobriram-na de aplausos; agora, que a economia passa por uma das maiores estagflações de nossa história, se fazem de rogados e atribuem o triste quadro atual da economia a um “ajuste fiscal” que sequer foi esboçado, dado o apego ideológico ao Estado, serôdio, extemporâneo e demodée da senhora que nos governa e de seu partido e a uma pretensa “ortodoxia” levytica, que se limitava quase que exclusivamente a tentar ressuscitar a CPMF. Entenderam? A culpa pela crise não é deles, de suas teorias estapafúrdias, nem da inépcia do governo para cortar seus gastos; a culpa é do “conservador” Levy – o mesmo que passou um ano inteiro sem nada fazer de concreto. Mas eles são, afinal, “progressistas”...

Esses senhores, portanto, são mentirosos, trapaceiros e loroteiros! Comportam-se como verdadeiros criminosos intelectuais, porque se recusam a aprender com os próprios erros. Nesse sentido são - sim senhor e com todas as letras - burros!

Sim, é isso mesmo, são burros, estúpidos, néscios, pascácios, lorpas, aparvalhados! Se um quadro está torto na parede, qualquer pessoa – a não ser que seja uma verdadeira cavalgadura – sabe que o que se deve fazer é reposicioná-lo, mexendo no cordão que o prende, para que fique paralelo ao teto e ao piso. Mas os espécimes do aedes unicampi preferem manter o quadro torto, derrubar a parede, o teto e o piso e construir outros em seu lugar, paralelos ao quadro inclinado.

Se eu tivesse sido o responsável pelo Cruzado II, sinceramente, teria vergonha até de sair na rua; no entanto seu principal mentor – o ministro da época – deita falação contra o ajuste fiscal (em meio a suas surradas papoulas) e diz que não teve nada a ver com a matriz da Dilma. Se, por outro lado, eu tivesse errado todas as previsões sobre a economia que fiz e, além disso, tivesse sido presidente de meu clube de futebol e o tivesse levado à falência, trataria de enfiar o rabo entre as pernas e estudar a boa teoria econômica; no entanto, o economista que se enquadra nessa incompetência profissional ainda tem a desfaçatez de negar a necessidade de um ajuste fiscal, além, obviamente, de “tirar o seu da reta”, negando qualquer afinidade com a referida e desastrosa matriz. Sacripantas e velhacos!

A mais recente manifestação do aedes unicampi foi a “nota de repúdio” ao texto do economista Alexandre Schwartsman, em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, “O Porco e o Cordeiro”, uma fábula econômica com um diálogo entre animais (ver aqui). Uma infestação de 154 profissionais da espécie aedes unicampi, como relata Mansueto Almeida em seu blog, lançou-se contra Schwartsman, reclamando da linguagem cifrada e, segundo eles, desrespeitosa, com que teria tratado as pessoas de quem discorda, mas que, na verdade, é uma alusão à famosa obra de 1945, Animal Farm (A revolução dos Bichos) de Geroge Orwell.

Como oberva Mansueto, o “interessante é que muitos dos que assinam a Nota de Repúdio não são também muito educados no debate público e costumam usar adjetivos bastante fortes para descrever ideias com as quais não concordam, seja em artigos, seja nos posts nas redes sociais”.

Estamos cansados de sermos chamados de “neoliberais”, “defensores de banqueiros”, “ingênuos”, “simplistas” e outras qualificações, ora irônicas, ora agressivas, por heterodoxos que se autoproclamam “desenvolvimentistas”, “progressistas”, “intelectuais”, etc. e que defendem aumento dos gastos públicos, de impostos e da presença do Estado; são contra a estabilidade monetária e a liberdade econômica e adoram controlar preços e a vida dos indivíduos. Chega dessa gente? Qual o quê, estamos no Brasil...

Infelizmente, teremos que passar por mais dificuldades para que esses mosquitos mortíferos à economia e à sociedade sejam erradicados e décadas para eliminarmos todos os seus possíveis focos de reincidência. Mesmo assim, esperando que, depois de 516 anos (sem contar os dois ou três seguintes, em que suas teorias certamente causarão ainda mais estragos), tenham aprendido a distinguir causas de efeitos.

E, já que um desses exemplares de aedes unicampi escreveu recentemente um artigo atacando Schwartsman repleto de citações em latim (que, com probabilidade certamente igual a 1, deve ter copiado de algum dicionário de frases do idioma do Lácio), sinto-me também no direito de encerrar escrevendo: suae quisque fortuna faber est e, contrariamente ao que ele fez - pois fez questão de não colocar a tradução de cada adágio e brocardo (com certeza por saber que os leitores teriam preguiça de buscar a tradução e assim parecer mais culto) -, mostrar seu significado. O homem é o fabricante de sua própria sorte. Enquanto tivermos no governo esses exemplares de aedes unicampi ditando regras malucas na economia e enquanto esses perigosos insetos continuarem infestando nossas universidades e nossa mídia, iludindo muitos milhões de indivíduos que não entendem de economia, estaremos abrindo alas para um destino de atraso.

Quem semeia ventos colhe tempestades e quem semeia heterodoxia econômica, no tempo certo da colheita terá recessão, inflação, desemprego e estará roubando os sonhos de muitos milhões de inocentes.