Dez. 2015 - 2015, MAIS UM ANO PERDIDO

Artigo do Mês - Ano XIV– Nº 165 – Dezembro de 2015

anomiaSoa como redundância, tamanho é o seu reconhecimento, quando alguém alerta que o país atravessa uma das crises mais agudas de toda a sua história e abrangente em seus múltiplos tentáculos: institucional, político, econômico, ético, moral, cultural, educacional e outros.

Já vivemos, em pouco mais de meio milênio de vida, muitas crises em todas essas esferas, mas acredito que nenhuma tenha sido tão ampla – a ponto de abranger todas elas – como a que atravessamos neste ano que começa a terminar.

Tenho escrito e dito em diversas ocasiões que não se trata de uma crise meramente econômica, ou política, como muitos parecem acreditar, mas de uma pandemia, ou seja, de uma epidemia de grandes proporções e que se espalha por todos os setores da sociedade deixando seus rastros de destruição.

 

O Brasil, esse gigante que dorme há 515 anos em seu esplêndido e feérico berço, está paralisado, inerte, inerme, sem conseguir se mover e defender e castrado. Escrever sobre as mazelas do país nada mais é do que desfilar um rosário de duras constatações, de frias realidades e de revoltantes iniquidades: inflação de dois dígitos, desemprego de dois dígitos, corrupção de mais de sete dígitos, saúde, educação e infraestrutura aos pandarecos, segurança interna e externa aos frangalhos, justiça injusta, representantes dos demais poderes com total e absoluta falta de credibilidade, tanto os do partido que nos governa desde 2003 quanto os da oposição. Oposição? Que oposição, salvo uns três ou quatro gatos pingados dotados de senso de honradez e com as cabeças no lugar e que têm a coragem – que deveria ser de todos – de dizer o que precisa ser dito, de exigir o que é para ser exigido e de cobrar o que precisa ser cobrado?

O povo, que deveria estar assumindo seu papel intransferível de cobrar daqueles que elegeu um mínimo de respeito, parece ter colocado a cauda entre as pernas, como um cãozinho apanhado por seu dono fazendo alguma travessura. E continua com o velho e secular vício de falar mal dos políticos, mas acreditando que algum político iluminado o salvará de ser lançado na Geena.

Em suma, prevalece um estado absolutamente revoltante, aquilo que os sociólogos chamam de anomia, caracterizado pela ausência generalizada de respeito às normas sociais. Não é de causar estranheza, querido leitor, que aquele seu conhecido que vocifera abertamente chavões do tipo “todos os políticos são ladrões”, se estivesse no lugar daqueles mesmos políticos para os quais aponta seu dedo condenatório, muito provavelmente roubaria mais do que eles. Poucos são, infelizmente, os que não estão dispostos a atirar a primeira pedra...

É evidente que uma crise de tal magnitude tem várias origens: a péssima gestão da política econômica desde 2008, o aparelhamento do Estado pelo partido do governo, o baixo nível de educação da população, o permanente desrespeito à economia de mercado, a burocracia sufocante, o capitalismo de compadrio que gera alianças espúrias entre políticos, burocratas e pretensos “empresários” e outras, muitas outras, que não vou enumerar aqui para não cansar você.

Mas minha tese e, mais do que uma simples tese, minha convicção é que todo esse quadro degradante, humilhante e sufocante a ponto de nos fazer sentir como se estivéssemos dentro de um túnel escuro e aparentemente sem fim decorre de uma e somente única fonte, de uma solitária, porém mortífera causa: a deterioração dos princípios morais. Esse fenômeno não é só brasileiro, é mundial e vem se intensificando nas últimas décadas com os permanentes ataques aos valores da civilização judaico-cristã ocidental, sob a égide sinistra do relativismo moral, esse mal que Bento XVI, em sua primeira declaração como Papa, apontou acertadamente como o maior de nossos tempos. O relativismo moral está para o mundo ocidental, ou seja, para a nossa civilização, assim como a saúva está para o Brasil: ou o segundo acaba com a primeira ou ela acabará com o mundo. Em nosso país esse fenômeno é mais do que evidente, patente – e indecente.

Não podemos deixar de aprender com essa crise imensa que se abate sobre nossa sociedade. Penso que devemos aproveitar a ocasião e transformá-la em algo como uma hora da verdade.

Parece haver chegado finalmente o momento em que nós, cidadãos livres e conscientes, somos chamados a decidir se vamos de fato construir uma sociedade rica ou continuar a lançar sobre outros as consequências de nossa incompetência. Por isso, precisamos refletir sobre alguns pontos importantes.

O primeiro é que devemos - se desejamos mesmo transformar o Brasil - abrir mão de toda e qualquer solução formulada por intelectuais. Uma leitura que, muito provavelmente, mostrará ao leitor essa recomendação é o livro “Os Intelectuais”, de Paul Johnson. Ao longo de seus treze capítulos, vão-se tornando extraordinária e assustadoramente claras as três grandes características da “intelligentsia”: o total desamor à verdade, o egocentrismo (fonte da inveja) e a pretensão de acreditar que as ideologias valem mais do que as pessoas. Em nossa hora da verdade, devemos repelir a crueldade embutida em todas as ideologias, por sua suposição de que os seres humanos não apenas podem, mas devem adequar-se às ideias. O pior dos despotismos é a insensível tirania das ideias, eis a lição que nos deixou o século XX e que, ao que parece, a maioria das pessoas não aprendeu. O partido do governo muito menos.

Uma sociedade próspera e rica deve ser construída por indivíduos e pelas providências práticas que tomam, pela utilização de recursos humanos, de qualidades morais, por instituições políticas e econômicas que respeitem e incentivem a liberdade de escolha, por leis que não sejam meros comandos ou ordens, mas normas gerais de justa conduta, prospectivas, abstratas e impessoais e, portanto, aplicáveis a todos os habitantes, inclusive os que eventualmente estiverem ocupando o poder.

O segundo ponto a ser meditado é que, em função das considerações anteriores, a reconstrução do Brasil não deve ser confiada ao Estado, nem a este ou àquele partido político, nem a algum motorista iluminado que prometa, sozinho, levar o país ao progresso.  Ela depende de nós, cidadãos, de nossa capacidade de descobrir instituições que garantam o funcionamento, de forma espontânea, dos três grandes sistemas que compõem a sociedade: o econômico, o político e o moral-cultural. Não cabe ao “Brasil” a decisão, mas aos brasileiros, porque o “Brasil” não pensa; quem pensa e age são seus cidadãos!

Por fim, precisamos lançar definitivamente fora o relativismo moral a que aludimos acima, perdendo de vez o receio de enfrentar o patrulhamento ideológico que conseguiu transformar a expressão “moralismo” em autêntica ofensa e que procurou ridicularizar o exercício da autoridade, seja por parte de pais ou de professores, transformando esse exercício essencial em sinônimo de “autoritarismo”, gerando, assim, a permissividade. Já é tempo de sabermos que autoridade não é repressão e que repressão não é fascismo. Nossa sociedade, conforme já escrevemos anteriormente, atravessa um estado de anomia, em que as violações de normas, pela clara ausência de sanções - e, quando estas existem, pela baixa probabilidade média de que venham a ser aplicadas - tendem a tornar-se a regra geral e não as exceções.

Quando um senador e líder do governo em pleno exercício de suas funções é preso por obstruir investigações da Polícia Federal para apurar assaltos aos bolsos dos que pagam impostos; quando um banqueiro é preso por “financiar” as pretensões do referido senador; quando estádios de futebol são construídos ou reformados com valores exorbitantes, com o intuito precípuo de enriquecer empreiteiras e políticos; quando uma empresa como a Petrobras (que deveria ter sido privatizada há muito tempo) é saqueada sucessivamente até a exaustão e membros do partido do governo ou de partidos aliados agiram como saqueadores; quando um ex-chefe da Casa Civil está preso por corrupção; quando empreiteiros e políticos vivem como amasiados; quando um tesoureiro do partido que está no poder também está no xilindró pelos mesmos motivos, bem como diversos de seus membros; quando o BNDES financia com juros “de pai para filho” ditaduras como as de Cuba e Venezuela; quando “empresários” enriquecem sem correrem riscos por serem amigos de políticos; quando o presidente da Câmara dos Deputados está envolvido em gravíssimas acusações de corrupção; quando o presidente do Senado já teve que renunciar a um mandato (depois a “vontade popular” o elegeu novamente) para não ser cassado; quando a Presidente do país se mostra tão arrogante quanto incapaz de esboçar um mero rascunho para vencer a crise institucional;  quando, enfim, o “esperto” passa a ser a regra e o correto a exceção, é tempo de parar tudo.

Chega, não dá mais! O ano de 2015 foi um ano inteiramente perdido e assim serão os seguintes, se não houver um choque moral que abranja a política, a economia e a cultura brasileiras. O país precisa de mudanças “para ontem”, sob pena de continuar vagando no oceano da incerteza, pois o Brasil é hoje um barco à deriva, com muitos furos no casco e a casa de máquinas alagada. O governo federal perdeu a capacidade de governar, pela incompetência de sua cúpula para fazer as articulações políticas imprescindíveis à governabilidade. É, infelizmente, um governo decrépito e comatoso. Evidentemente, esse barco desgovernado não afunda sozinho, pois leva com ele para o fundo do mar o barco da economia que a ele está atrelado.

Não temos, definitivamente, nada que se assemelhe a um governo. E, como já alertava São Paulo aos coríntios, “quando a trombeta não emite um sonido certo, ninguém se apresenta para o combate”.

Muitos economistas apontam erros na política econômica e formulam soluções para a crise econômica, algumas delas que podemos classificar como razoáveis. Mas o problema do país não está só na economia. Podemos afirmar que as mazelas econômicas são – sem subestimarmos a contribuição da incompetência inegável dos economistas do governo – fruto de uma ferida maior e que essa ferida é, essencialmente, de natureza moral.

Uma boa medida profilática sugerida por alguns cientistas sociais – mas que exigiria um espírito de sacrifício que nem de longe paira sobre as cabeças de nossos políticos – seria a renúncia coletiva de todos os políticos eleitos, passando pela Presidente do país, governadores, prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais e vereadores, com a convocação de novas eleições com a maior brevidade possível. Nada de “intervenções militares”, que cheiram a mofo e já provaram que não resolvem!

Entretanto, isso seria querermos ser mais realistas do que o rei. Penso que o melhor que poderia acontecer neste momento seria o povo sair às ruas, peitar a mídia chapa branca e, sem qualquer conotação partidária, promover megamanifestações espontâneas exigindo uma tripla renúncia: a da Presidente do país e as dos presidentes da Câmara e do Senado. A partir daí, o país passaria a ser temporariamente presidido pelo vice e se convocariam novas eleições gerais para todos os cargos eletivos, inclusive os de prefeitos e vereadores.  

Mas, para que isso aconteça, o povo terá que deixar de reclamar e passar a agir, saindo às ruas sem ser guiado pela emissora A ou pelo jornal B ou pelo intelectual C, mas pelo espírito de verdadeiro patriotismo.

Entretanto, sou um otimista no longo prazo. As ideias de liberdade econômica, de respeito à propriedade e de representatividade vêm crescendo a taxas formidáveis em Macunaíma. Muitos jovens têm demonstrado uma resistência excepcional à doutrinação que lhes é imposta desde o ensino fundamental e, percebendo que não é o Estado que deve guiar suas vidas e que muito menos será ele que fará cair o maná do céu para os pobres, vêm formando grupos de estudos liberais em todo o país. Se à defesa dessas ideias esses jovens somarem a da ética do trabalho e a da lei como um conjunto de normas prospectivas e impessoais de justa conduta, podemos ter esperança. Essa força está brotando espontaneamente, de baixo para cima e é irreversível. Nesse sentido, o sistema que vige atualmente – o “capitalismo de compadrio”, moralmente condenável sob todos os aspectos, como o denominou o economista Alejandro Chafuén, está com os dias contados.

Tempos melhores virão.