Nov. 2014 - O MELHOR DETECTOR DE MENTIRAS: O MERCADO!

Artigo do Mês - Ano XIII– Nº 152 – Novembro de 2014

bugieLogo na semana seguinte ao segundo turno da eleição presidencial, em que a candidata do governo conseguiu - a duras penas e sabe-se lá por quais meios – reeleger-se, o mercado mostrou, escancarou, despiu, despojou, desnudou e desmascarou a estratégia adotada pelos marqueteiros de sua campanha, evidenciando algumas mentiras que foram ostensivamente utilizadas, muitas em tom extremamente agressivo e sem qualquer respeito a um mínimo de ética. Não é nenhum exagero afirmar que nunca se viu tantas inverdades serem usadas em uma campanha eleitoral, mesmo sabendo-se que campanhas eleitorais muitas vezes costumam por conta da ação humana no campo da política – a busca pelo “fim”, o poder -, utilizar “meios” escusos, os ataques caluniosos, que as fazem passar ao largo da verdade.

 

O mercado – entendido não apenas como o mercado financeiro, mas como o processo dinâmico de descobertas, tentativas, erros e mecanismo de coordenação, tão bem descrito pelos economistas austríacos, especialmente por Israel Kirzner, é o melhor detector de mentiras existente! Pode demorar um pouco, mas cedo ou tarde sempre pune os erros, as avaliações erradas, a mediocridade da “nova matriz econômica”, os represamentos artificiais de preços e tarifas, as mentiras, enfim. Na União Soviética essa punição demorou 70 anos, pelas características do sistema que lá implantaram, mas, quando veio, foi de uma só vez, sem que um tiro precisasse ser disparado. Em todos os países que seguiram e ainda seguem o intervencionismo radical, como Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Coreia do Norte e outros, a revelação da verdade só não veio ainda à tona porque as informações são escondidas não a sete, mas a quatorze chaves. A China, por sua vez, só começou a obter êxito quando, no terreno econômico, abandonou O Capital e o panfletinho de Mao e passou a ler o livro saudável da abertura econômica.

Só que no Brasil, desta vez, não demorou mais do que dois ou três dias para que algumas das verdades viessem à superfície. E outras certamente estão por aparecer. Quem acusava os adversários de que elevariam a taxa de juros, três dias depois de proclamada a vitória nas urnas já aumentava a taxa Selic em 0,25; quem dizia que a inflação estava absolutamente controlada, já reconhecia que isso não era verdade, ao anunciar a nova taxa básica de juros; quem afirmava que as contas públicas não apresentavam desequilíbrios, foi forçado a engolir que o déficit total foi de cerca de R$ 25 bilhões, o maior desde 1998 (sendo que a meta era de um superávit  de R$ 99 bilhões) ; quem jurava de pés juntos que as tarifas da energia elétrica e de telefones, bem como o preço da gasolina, estavam “no lugar certo”, teve que admitir que os mesmos, nem de longe, refletiam a realidade inexorável do mercado e que os reajustes serão consideráveis; quem negou que a economia estava em recessão, daqui a dois meses, assim que for anunciada a taxa de crescimento do PIB em 2014, será forçado a engolir as mentiras; quem jurava de pés juntos que as contas externas não eram um problema teve que digerir o maior dos déficits comerciais em muitos anos; quem se jactanciava de ter eliminado definitivamente a miséria teve que absorver os novos dados mostrando que, pela primeira vez em dez anos, o número de brasileiros vivendo em estado de extrema miséria voltou a subir;  e quem negava a existência de desemprego terá que se entalar com os novos dados do IBGE.

A verdade é que a tal “nova matriz econômica”, como advertimos diversas vezes, seria necessariamente desastrosa! Se até a segunda metade do segundo mandato de Lula a política econômica foi pragmática na moeda, nas contas públicas e no câmbio, a partir de 2008, quando a economia mundial entrou em crise, nosso governo imaginou que poderia imunizar a economia mediante estímulos à demanda, um erro terrível. E a partir de 2010 recuamos mais de meio século em termos de aplicação da boa teoria econômica e, mesmo, em termos de bom senso: mandou-se às favas a preocupação com as contas públicas; adotou-se um processo lamentável de maquiá-las para parecer o que já não mais eram; estimulou-se irresponsavelmente o crédito, sem qualquer lastro em poupança; a taxa de câmbio passou a ser “monitorada”; as metas de inflação passaram a subir como um balão daquelas festas juninas antigas; os bancos estatais foram sendo crescentemente utilizados para “fomentar o desenvolvimento”; a inflação de preços passou a ser represada por decreto, a gestão de comércio exterior tornou-se mais política do que voltada para os interesses de nossa economia; cresceram, enfim, a carga tributária, o intervencionismo ideológico cego e a intromissão do Estado nas ações individuais dos agentes econômicos. Um desastre, um sinistro, um acidente nefando premeditado, digno de um case com meus alunos mostrando o que não deve ser feito!

Todos os problemas que apareceram – e que agora se tornam visíveis – eram perfeitamente previsíveis pela Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos. Tenho a consciência tranquila, porque adverti isso até antes da funesta “nova matriz”, quando o governo achou por bem estimular a demanda por bens de consumo durável, por volta de 2008. Não era adivinhação, até porque economistas não podem ser adivinhos (embora alguns achem que sim); era pura e simples aplicação de uma teoria esboçada por Menger e aperfeiçoada por Mises e Hayek, segundo a qual o desemprego e o desempenho medíocre da economia são consequências inevitáveis da inflação de crédito sem lastro em poupança real e do descuido em relação aos preceitos que devem reger a prudência na condução da política econômica.

Em suma, ao desmontarem o tripé formado pelos regimes monetário, fiscal e cambial, destruíram os bons fundamentos – e ainda perseguiram e desdenharam de quem os advertia. Ao fazer isso, conseguiram manter artificialmente a economia rodando, embora cada vez mais lentamente, por dois ou três anos, mas trocaram, como Esaú no Velho Testamento, os privilégios da primogenitura por um prato de lentilhas. Como ensinou Bastiat, atiraram no que se vê, mas desdenharam completamente, por absoluta incompetência, tudo o que se deve prever.

Só que os mercados não falham, eles funcionam sempre e em qualquer circunstância. São chatos como carrapatos, infernizam as vidas de políticos populistas e de maus economistas. É impossível prever quantitativamente o que vem pela frente, mas é impossível também não afirmar que atravessaremos – como já está acontecendo – tempos difíceis. Quantos meses ou anos isso vai durar? Temos duas hipóteses: (1) se o governo reconhecer seus próprios erros e abandonar a néscia “matriz”, substituindo-a por uma volta aos bons fundamentos, com cortes de gastos, política monetária austera, respeito às metas de inflação, redução dessas metas, flexibilidade cambial, desregulamentação, privatização, etc., estimo em algo perto de nove meses a um ano para voltarmos a uma situação razoável; (2) se, como creio ser mais provável, insistir nos atuais erros e – o que é pior – no desespero, aprofundá-los, teremos pela frente anos de estagnação.

Não é pessimismo. Não é torcida “contra”. Não é nada “anti-PT” nem "defesa do PSDB". É só boa teoria econômica!

Cada dia fico mais convencido de que o mercado é o melhor dos detectores de mentiras, porque, no longo prazo, não erra. A “mão invisível” sempre prevalece contra o intervencionismo. A atual política econômica vai ser nocauteada e não vai saber de onde partiu e nem quem deu o soco, exatamente porque a mão é invisível...

Espero que não tenham dúvidas a respeito disso.